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domingo, 25 de maio de 2014

Bolo de coco


Domingo passado ficamos sem eletricidade por mais de quatro horas. Aqui no meu bairro é assim: choveu, cai a energia. Isso foi na última hora de luz do dia, o que significava que não tínhamos muito o que fazer a partir do momento em que escureceu: não dava sequer para ler o livro que estou lendo, Ossos, Sangue e Manteiga, a auto-biografia da chef norte-americana Gabrielle Hamilton.

Aí eu decidi bater um bolo. Há uns dias minha amiga e vizinha Claudia me mandou um pedaço de uma deliciosa cocada de forno, quase com a textura de um bolo. É, aqui a gente tem essas gentilezas, uma xícara de açúcar emprestado, um pratinho com algo gostoso, esses pequenos gestos que dão sentido ao conceito de vizinhança.

A tal cocada estava tão boa que eu, muito gulosa, comi o meu pedaço e o do Lucas. Ainda não peguei a receita com a Claudia, e de todo modo é preciso comprar coco fresco na feira de sexta. Mas eu tinha coco ralado e leite de coco industrializados na despensa e decidi fazer um bolinho simples.

Se tivesse eletricidade, eu teria batido as claras em neve usando o fouet do mixer. Mas toda vez que eu fico com preguiça de bater claras em neve à mão, penso nas maravilhas que os confeiteiros da corte do Rei Luís XV faziam sem batedeira. Então, os esforços um pouquinho maiores aqui foram bater as claras em neve à mão e acender o forno usando fósforos. Mas deu tudo certo e o bolo ficou macio e fofinho.

Bolo de coco

Ingredientes:
3 ovos (gemas e claras separadas)
1 xícara de açúcar
3 colheres (sopa) de manteiga
1 vidro (200 ml) de leite de coco
1 pacote pequeno (50 g) de coco ralado
2 xícaras de farinha de trigo
1 colher (sopa) de fermento em pó

1 xícara = 250 ml

Modo de fazer:

1. Aqueça o forno. Unte e enfarinhe uma forma média (usei uma forma de bolo inglês grande). 

2. Bata as claras em neve e reserve.

3. Bata bem o açúcar, a manteiga e as gemas.

4. Adicione o leite de coco, o coco ralado e a farinha de trigo e misture bem para incorporar.

5. Acrescente delicadamente o fermento em pó e as claras em neve. Despeje na forma e asse em forno médio. Teste com uma faca ou palito inserido no bolo - se sair limpo, o bolo está pronto. Desenforme morno.

terça-feira, 17 de julho de 2012

A culinária do sertão


Semana passada li "O Não Me Deixes" da Rachel de Queiroz. (3a. ed., Ed. José Olympio, 2010).
Nele a Rachel abre as portas da casa de fazenda no interior do Ceará pra mostrar os hábitos culinários e sociais.
Nas palavras dela: "Casa tão rústica, austera como um convento pobre, as paredes caiadas, os ladrilhos vermelhos, o soalho areado. As instalações rudimentares, a lenha a queimar no fogão, a água de beber a refrescar nos potes."
Mas, apesar da simplicidade e da falta de conforto, ela reconhece o apego ao lugar: "Por que tanto carinho e amor por estas terras ásperas? Não sei. Mistério é assim: está aí e ninguém sabe. Talvez a gente se sinta mais pura, mais nua, mais lavada. E depois a gente sonha."
E ao terminar de ler, a gente se sente meio deslocada nessa metrópole do consumo estéril: "Há um prazer áspero na permanente descoberta de quanto supérfluo a gente se sobrecarrega e de como é fácil a gente se despojar dele. É como tirar uma casca suja. Ou uma pele velha, seca, engelhada."
Enquanto descreve a paisagem e os hábitos, Rachel discorre sobre a culinária local, toda feita ali, com o fruto escasso da terra e das criações. Fiquei impressionada com a descrição de como se preparam o queijo coalho, a farinha de mandioca e a cajuína.
As receitas em si, reconheço, não são exatamente práticas pra gente aqui da cidade grande.
Tudo entremeado de histórias desse povo simples e cheio de princípios que é o nordestino. Fiquei encantada com o trecho em que Rachel descreve as festas alegradas pelos "tocadores":
"Nas suas melhores roupas e na maior educação, chegam-se [as moças e rapazes da redondeza] para cumprimentar os donos da casa e as visitas, e vão se abancando no parapeito do alpendre. Lá pelas tantas, depois de muitas conversas e cantorias, vêm pedir licença para dançar. A licença é dada, e os pares logo enchem o alpendre. Sem namoros, sem agarramentos, sem conversas, e a gente bem vê que é só o prazer da dança".
É um retrato bonito dessa gente tão incompreendida aqui no Sul.
Rachel de Queiroz (1910-2003) foi uma das grandes presenças feministas na literatura. Foi militante comunista e a primeira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras. Suas obras mais famosas são O Quinze, Memorial de Maria Moura e Dora, Doralina. Também traduziu grandes obras, inclusive várias de Dostoievski.
(Este post foi publicado originalmente no meu blog Lia de Lua em 15/11/10)